Não consigo escrever. Viviane Novaes

Não consigo escrever…

Não consigo exprimir em palavras os vazios que estão cheios aqui dentro.

Cansada das notícias que chegam como torpedos e nos puxam para as profundezas como se estivéssemos atados a âncoras.

Cansada de ver pessoas se afundando no ódio e na mentira.

Eu não consigo escrever porque minha sensibilidade me adormece, entorpece.

Estou cansada de tentar arrumar o meu mundo e minhas ideias jogando palavras em folhas em branco.

Exorcizo minha dor com a escrita ao mesmo tempo em que ela ganha força.

Não quero mais ter que dizer nada, nem o óbvio e nem o escondido.

Não tenho pretensão de ser farol para ninguém, nem lanterna para alumiar os passos curtos.

Não quero mais dizer o que já foi dito inúmeras vezes e que não surtiu nenhum efeito.

Cansada das palavras exaustas que se rastejam na esperança de deixar seu rastro de lesma.

Não quero escrever sobre o Amor quando nem conheço ao certo que tipo de sentimento é esse.

Não quero falar de política, religião, do novo presidente, da Amazônia.

São esses assuntos que me tiram a vontade de dizer, escrever.

Não quero falar sobre meu trabalho, o pé na bunda, o amor não correspondido.

Muito menos sobre as redes sociais e a influência delas na nossa vida.

Não consigo escrever sobre morte, perdas, abandono.

Não vou mais falar sobre homens, mulheres, relações humanas.

Quero o silêncio, por hoje basta, sem alvoroço, sem desassossego.

Não consigo escrever sobre a vida, distribuição de terras e a reforma agrária.

Não quero escrever sobre a reforma da Previdência, como tudo isso nos afetará.

Não quero usar de teorias e citações para explicar o óbvio.

Não quero mais esse poder que me foi outorgado, não quero ter o dom para desenhar no branco.

Não quero continuar, mas não posso parar.

Ouço vozes ancestrais lembrando que tenho o poder quando lanço o signo à deriva.

Que as palavras tratam com carinho aqueles que delas se apropriam.

Que das minhas mãos saem letras, mas da alma o significado.

Que a madrugada me traz mais que insônia, traz palavras.

Que eu não sou a mulher do silêncio e que fui desenhada no grito.

Não quero escrever, se silencio me afundo no surto esquizofrênico e não saio das minhas entranhas.

Para não morrer por dentro, morro por fora.